sábado, 19 de março de 2011

Os segundo e terceiro dias de caminhada são sempre os mais difíceis


Acordei a pensar. E agora? Ferrou!!! É o que se diz no país onde vivo no momento para... meti-me numa bela alhada. Tenho um Blog e preciso escrever nele. É que eu devo ser a jornalista que menos gosta de escrever o que pensa. Nos 12 anos em que me assumi como tal, quando o cartão de visita dizia "journalist - Portuguese TV News " muitas vezes pensei: a única coisa que realmente faço é descrever eventos e relatar situações. A mim cabia-me geralmente a cobertura de assuntos sociais, culturais ou os chamados "faits divers". Aquelas peças que fecham um Telejornal repleto de tensões e catástrofes, descomprimindo os telespectadores ao som de uma musiquinha. Cá no íntimo, ciente de que era o trabalho menos relevante para a carreira, regozijava. Ficar fechada uma tarde inteira no palácio do governo para falar com um deputado ou esperar o fim de uma interminável reunião do Grupo de Ligação Chinesa não era própriamente prazeroso. No meio jornalístico, a cultura é geralmente tema de menor importância. Para mim era simplesmente, o aasunto mais próximo da vida lá fora, da viagem. Quando penso que poderia voltar às redacções dá-me um arrepio na espinha. E então vem-me a saudade da adrenalina das fábricas de notícias, cheias de stress. Onde com duas palavras se faz uma história e a adição de uma imagem a torna ainda mais credível. Há até jornalistas bem imaginativos que escrevem páginas intermináveis sobre lugares de que só ouviram falar. Bom, isto para dizer que tenho 27 anos de histórias para contar de lugares que percorri e estou para aqui a tentar distraí-los porque realmente nem sei por onde começar. Sabia que seria especialmente difícil principalmente porque eu sempre detestei relatos de viagens. Gosto de ler sobre um lugar específico, uma informação bem detalhada que no momento me poderá ser útil, e para isso nada como um bom guia da Lonely Planet. Os diários de bordo de viajantes, que relatam inclusivé onde lavam as cuecas sempre achei desnecessários.
Quando se parte para muito tempo, a viagem deixa de ser um período de descanso e de conhecimento de outras culturas. Passa a ser o dia a dia vivido de forma nómada.
No ano 2000 enviei todos os meus pertences de 13 anos de vida em Macau, num contentor para Portugal. Com muita dificuldade escolhi as roupas, sapatos, utensílios de cozinha, brinquedos, livros, equipamentos electrónicos e acessórios que cabiam dentro de duas caixas e 2 mochilas e também dentro de um Jeep, deixando espaço para 2 adultos à frente e duas crianças atrás e ainda para o Guia (polícia) que connosco atravessaria a China.
Foi um momento difícil, partir de Macau. Nunca é fácil, mesmo para nós, viajantes veteranos que 15 anos antes na euforia da juventude tínhamos abandonado os pais, os amigos e o nosso país para percorrer o mundo. A situação repetia-se de forma um pouco mais organizada, com um roteiro estudado, despesas calculadas e até cobertura da imprensa. Demorámos quase 3 meses a partir. Fizémos várias festas de despedida e no fim faltava sempre um detalhe que nos fazia adiar. E o que nos movia afinal? Porque não deixar tudo como estava? Tudo parecia estar certo. Porquê mexer na vida organizada? Partir com os filhos às costas para ver o mundo...
Alguns de nós precisam periódicamente de realizar travessias, alterar o rumo, conhecer e partilhar. Deixar de fazer o mesmo caminho para casa. Não ver os mesmos vizinhos, os mesmos colegas de trabalho, não ir ao mesmo cinema ou restaurante. A monotonia e a rotina tornam-se incrívelmente prejudiciais e imperativa a vontade de dar o mundo a conhecer aos filhos, uma educação especial. Eles até já podiam carregar as suas próprias mochilinhas.Estava na hora...
Nos anos 80 uma VWKombi de 69 era a casa e o carro. 3.500usd foram esticados durante dois anos, assim como a bagagem ía diminuindo. A casa sobre rodas ficou no Paquistão por impossibilidade burocrática de entrar na China. As desnecessárias roupas de inverno foram vendidas ou trocadas. E a viagem ficou mais agradável quanto mais leve. Um dos maiores erros do viajante é carregar demasiadas coisas consigo. Chegámos a Macau, com 50usd no bolso e algumas coisas dentro de um saco de juta do Nepal. Tinham sido quase 2 anos de viagem, sem um arranhão. Com os olhos brilhantes e recheados de sensações entrámos pelas Portas do Cerco no dia do Grande Prémio, jorrando saúde e entusiasmo.

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